O Luto de Avraham e o Cuidado com os Enlutados: Lições da Parashá Chayei Sarah

O Luto de Avraham e o Cuidado com os Enlutados: Lições da Parashá Chayei Sarah

Introdução: o luto de Avraham e a pergunta de quem fica

Nesta semana, milhões de brasileiros foram aos cemitérios no Dia de Finados. Levaram flores, acenderam velas, rezaram e, muitas vezes, choraram em silêncio diante de um nome gravado na pedra. Passada a data, a vida volta ao ritmo normal, mas a saudade não vai embora com o feriado. Para quem perdeu alguém há pouco tempo, a pergunta continua: como se vive depois de uma perda? E como podemos ajudar quem está passando por ela?

A Parashá Chayei Sarah (חַיֵּי שָׂרָה), cujo nome significa “Vida de Sara”, começa justamente com um funeral. A porção (Gênesis 23:1 – 25:18) se abre com a morte de Sara e se encerra com a morte de Avraham. No meio do caminho está um homem enlutado que chora, se levanta, cuida dos que ficaram e, no fim, deixa um filho consolado. O luto de Avraham é uma das primeiras e mais delicadas descrições de perda em toda a Escritura, e tem muito a dizer a uma sociedade que, muitas vezes, não sabe o que fazer com a dor.

1. “Veio Avraham lamentar Sara e chorar por ela”

A Torá não esconde a dor do patriarca. Depois de cento e vinte e sete anos de vida, Sara morre em Kiryat Arba, que é Hebron, e o texto registra:

“E veio Avraham lamentar Sara e chorar por ela.” (Gênesis 23:2)

Avraham é o homem da fé, aquele que deixou a sua terra, que esperou anos pelo filho da promessa e que subiu o monte Moriá disposto a obedecer. E, mesmo assim, ele chora. A fé não o impediu de sentir a perda. A Torá usa dois verbos: lispod (לִסְפֹּד), fazer o lamento, a palavra pública de despedida, e livkotah (וְלִבְכֹּתָהּ), chorar por ela, a dor íntima de quem perdeu a companheira de toda uma vida.

Na tradição dos escribas, a letra כ (kaf) dessa palavra é escrita em tamanho menor nos rolos da Torá. Os comentaristas leram nesse detalhe uma lição: o choro de Avraham foi real, mas teve medida. Ele não negou a dor, nem foi engolido por ela.

2. Levantar-se de diante do seu morto

O versículo seguinte diz: “Depois se levantou Avraham de diante do seu morto” (Gênesis 23:3). O luto tem um tempo para estar sentado junto à perda e um tempo para se levantar. Avraham se levanta para cuidar de algo concreto: dar a Sara uma sepultura digna. Ele se apresenta aos filhos de Chet como “estrangeiro e peregrino” (Gênesis 23:4), negocia com respeito e compra a caverna de Machpelá diante de testemunhas.

Há uma sabedoria profunda nisso. Cuidar do corpo de quem partiu, honrar a sua memória e tomar as providências necessárias também fazem parte do luto. Não é frieza: é amor que continua agindo.

A dor da perda aparece de novo no final da história de Eliezer e Rivká. Yitzchak, que havia perdido a mãe, sai ao campo à tarde “para meditar” (Gênesis 24:63). Quando Rivká chega, a Torá conclui:

“E Yitzchak trouxe-a para a tenda de Sara, sua mãe, e tomou Rivká, e ela foi sua mulher, e ele a amou. Assim Yitzchak foi consolado depois da morte de sua mãe.” (Gênesis 24:67)

O consolo de Yitzchak não veio de um discurso, mas de uma presença. A tenda vazia voltou a ser habitada. O luto não foi apagado, mas foi acompanhado.

3. O fim da vida de David: a lição da Haftará

A Haftará desta semana (1 Reis 1:1-31) nos leva aos últimos dias do rei David. O texto começa de forma quase crua: “Sendo, pois, o rei David já velho e de idade avançada, cobriam-no de vestes, porém não se aquecia” (1 Reis 1:1). O grande guerreiro de Israel agora depende do cuidado de outros.

Nesse cenário de fragilidade, Adoniyahu tenta tomar o trono, e são Natan, o profeta, e Bat-Sheva que se aproximam do rei para lembrá-lo da sua promessa a respeito de Shlomó. David reage, cumpre a palavra e deixa a casa em ordem. Bat-Sheva se inclina diante dele e diz: “Viva para sempre o meu senhor, o rei David!” (1 Reis 1:31).

Lado a lado, a Parashá e a Haftará falam do fim da vida com realismo. Ambas mostram que a morte e a velhice não são temas a serem escondidos, mas momentos que pedem presença, honestidade e cuidado de quem está por perto.

4. O luto no Brasil de hoje

O luto é uma experiência que alcança cada vez mais famílias. Segundo as Estatísticas do Registro Civil do IBGE, divulgadas em dezembro de 2025 e noticiadas pela Agência Brasil, o país registrou quase 1,5 milhão de mortes em 2024, um aumento de 4,6% em relação a 2023, a maior alta fora dos anos de pandemia. Por trás de cada número há pais, filhos, cônjuges e amigos que precisam reaprender a viver.

A ciência também tem olhado com mais atenção para os enlutados. Um estudo dinamarquês publicado em outubro de 2025 na revista Frontiers in Public Health, e divulgado pela CNN Brasil, acompanhou 1.735 pessoas enlutadas por cerca de dez anos. Os pesquisadores observaram que cerca de 6% mantiveram um sofrimento elevado durante todo o período. Esse grupo teve até 17% mais consultas anuais com clínicos gerais, usou mais antidepressivos e ansiolíticos e concentrou o maior risco de morte nos anos seguintes à perda. A dor que não encontra acolhimento pode adoecer.

O tema chegou até a legislação. Em maio de 2025 foi sancionada a Lei 15.139/2025, que instituiu a Política Nacional de Humanização do Luto Materno e Parental, voltada a famílias que perdem um bebê durante a gestação ou logo após o nascimento. A lei prevê atendimento humanizado e garante aos pais, entre outras coisas, o direito de dar nome ao filho natimorto no registro. É o reconhecimento de que até a dor que muitos preferem não ver precisa ser tratada com dignidade.

5. A Torá e o dever de consolar

A tradição judaica transformou o exemplo da Torá em prática. O nichum avelim (נִחוּם אֲבֵלִים), o consolo aos enlutados, é considerado um ato de bondade de grande valor. No Talmud (Sotá 14a), os sábios ensinam que o próprio Eterno consolou os enlutados, e citam o versículo desta parashá: “E aconteceu, depois da morte de Avraham, que Deus abençoou Yitzchak, seu filho” (Gênesis 25:11). Se o Criador visitou o filho enlutado, nós também devemos visitar.

Daí nasceu a shivá, os sete dias em que a família enlutada permanece em casa e recebe a visita de amigos e da comunidade. Quem visita não precisa ter respostas. Muitas vezes, a melhor ajuda é sentar-se, ouvir e lembrar junto. O livro de Eclesiastes já dizia que há “tempo de chorar” (Eclesiastes 3:4). A Torá não apressa o luto. Ela o acompanha.

Também é significativo que, na morte de Avraham, “Yitzchak e Yishmael, seus filhos, o sepultaram” (Gênesis 25:9). Dois irmãos com uma história de distância se encontram junto ao túmulo do pai. O luto, quando vivido com fé, pode aproximar o que a vida separou.

6. Yeshua e as lágrimas diante do túmulo

A Brit Hadashá mostra que o Messias não se manteve distante da dor humana. Quando Lázaro morre, Yeshua vai a Betânia, encontra Marta e Maria em lágrimas e os amigos da família chorando com elas. O evangelho diz que Ele “moveu-se muito em espírito e perturbou-se” e, em seguida, registra o versículo mais curto e talvez um dos mais profundos das Escrituras:

“Yeshua chorou.” (João 11:35)

Yeshua sabia que, minutos depois, chamaria Lázaro para fora do túmulo. Ainda assim, Ele chorou. Como Avraham diante de Sara, o Messias mostra que a esperança na ressurreição não elimina as lágrimas. Antes de agir, Ele se colocou ao lado dos que sofriam. E foi ali, diante da sepultura, que declarou: “Eu sou a ressurreição e a vida” (João 11:25).

Shaul (Paulo) escreve aos irmãos de Tessalônica com o mesmo equilíbrio: “Não quero, porém, irmãos, que sejais ignorantes acerca dos que já dormem, para que não vos entristeçais, como os demais, que não têm esperança” (1 Tessalonicenses 4:13). Ele não proíbe a tristeza. Ele a ilumina com esperança. E, aos romanos, deixa uma orientação simples para a comunidade: “chorai com os que choram” (Romanos 12:15).

7. Como viver e acolher o luto à luz da Torá?

  • Permita-se chorar. Avraham, o pai da fé, chorou. Sentir a perda não é falta de fé, é sinal de amor.
  • Levante-se no tempo certo. Pequenas tarefas, como cuidar da memória de quem partiu, organizar a casa e retomar a rotina aos poucos, ajudam a seguir em frente.
  • Visite quem perdeu alguém. Não espere ter as palavras certas. Presença vale mais do que explicações. Lembre-se dos enlutados também depois do enterro, quando as visitas costumam acabar.
  • Fale o nome de quem partiu. Contar histórias e lembrar juntos honra a memória e mostra à família que a pessoa não foi esquecida.
  • Esteja atento aos sinais. Quando a tristeza se prolonga por muito tempo e impede a vida diária, procure ajuda de um profissional de saúde. Buscar tratamento não diminui a fé.
  • Firme-se na esperança. A fé em Yeshua, a ressurreição e a vida, não apaga a saudade, mas dá a ela um horizonte.

Conclusão: uma vida que não termina no túmulo

É curioso que uma parashá que começa com uma morte se chame “Vida de Sara”. A Torá parece nos dizer que a vida de uma pessoa justa não se resume ao dia da sua partida. Sara continuou viva na fé de Avraham, no filho que ela gerou e na tenda que Rivká voltou a encher de luz. Avraham, por sua vez, morreu “em boa velhice, idoso e farto de dias” (Gênesis 25:8), e o Eterno abençoou o filho que ficou.

Que, passado o Dia de Finados, possamos aprender com Avraham a chorar com sinceridade, a nos levantar com coragem e a consolar com presença. E que a nossa comunidade seja, para cada pessoa enlutada, como a tenda de Sara: um lugar onde a dor encontra abrigo e a esperança volta a morar.

Leituras da semana

  • Torá: Gênesis 23:1 – 25:18
  • Haftará: 1 Reis 1:1-31
  • Brit Hadashá: João 11:17-44; 1 Tessalonicenses 4:13-18

Acompanhe nosso estudo ao vivo neste Shabat, às 10h, no YouTube: Chayei Sarah – Vida de Sara – 5787.

Fontes: Agência Brasil, “Mortes no país crescem 4,6% em 2024, maior alta fora anos de pandemia” (10/12/2025), com base nas Estatísticas do Registro Civil 2024 do IBGE; CNN Brasil/Agência Einstein, “Luto persistente afeta a saúde mental e eleva o risco de mortalidade” (18/11/2025), sobre estudo publicado na revista Frontiers in Public Health (30/10/2025); Lei nº 15.139, de 23 de maio de 2025 (Planalto); Talmud Babilônico, Sotá 14a.

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