Há momentos em que a vida nos obriga a deixar para trás aquilo que conhecemos. Uma mudança de cidade, a busca por trabalho, uma crise familiar ou a necessidade de fugir de conflitos podem levar uma pessoa a começar novamente em um lugar desconhecido. Para quem chega, o recomeço envolve muito mais do que encontrar uma casa: significa reconstruir vínculos, aprender novos costumes e descobrir se haverá espaço para viver com dignidade.
A Parashá Lêch Lechá, encontrada em Gênesis 12:1–17:27, apresenta uma história que nos ajuda a refletir sobre essa realidade. O chamado de Avraham inaugura uma jornada marcada pela fé, pela partida e pela confiança em uma promessa divina. Embora sua experiência não seja idêntica à de um imigrante ou refugiado contemporâneo, sua história nos convida a pensar sobre a maneira como enfrentamos o desconhecido e como tratamos aqueles que chegam de longe.
Lêch Lechá: a coragem de sair do lugar conhecido
Em Gênesis 12:1, o Eterno chama Avraham para deixar sua terra, sua parentela e a casa de seu pai, seguindo para uma terra que lhe seria mostrada.
Imagine a dimensão dessa decisão. Avraham não recebeu um roteiro completo de tudo o que aconteceria. Ele precisou confiar na palavra de Deus e caminhar sem conhecer antecipadamente todos os desafios que encontraria.
A jornada de Avraham não deve ser confundida com a experiência de todas as pessoas que migram. Muitos deixam suas casas por necessidade, perseguição, violência ou falta de oportunidades. Outros partem voluntariamente em busca de trabalho, estudo ou uma vida melhor. Ainda assim, a narrativa bíblica nos lembra de uma realidade humana: deixar o conhecido e começar de novo pode exigir coragem, perseverança e esperança.
Para quem recebe essas pessoas, surge uma pergunta importante: estamos dispostos a enxergar a história por trás daquele que chega?
A migração é uma realidade do nosso tempo
A mobilidade humana continua sendo uma questão relevante no Brasil. Segundo dados apresentados pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública em outubro de 2026, o país possui aproximadamente 1,96 milhão de registros migratórios ativos. O número evidencia a presença significativa de pessoas de outras nacionalidades vivendo e construindo suas vidas em território brasileiro.
Cada pessoa tem uma trajetória particular. Há famílias que procuram segurança, profissionais que buscam oportunidades, estudantes que desejam aprender e pessoas que precisam reconstruir a vida depois de experiências difíceis.
A chegada a um novo país, porém, não encerra todos os problemas. O idioma pode ser uma barreira, a formação profissional nem sempre é reconhecida, a distância dos familiares produz saudade e o desconhecimento dos costumes locais pode tornar a adaptação mais difícil.
Em junho de 2026, a UNESCO e o ACNUR divulgaram orientações para apoiar a inclusão de crianças migrantes e refugiadas nas escolas brasileiras, destacando a importância de enfrentar barreiras linguísticas, culturais e sociais.
Esses desafios não são resolvidos apenas com discursos de solidariedade. Eles exigem atitudes concretas: respeito, orientação, oportunidades de integração e disposição para conhecer quem é diferente de nós.
A Torá ensina a não oprimir o estrangeiro
A reflexão sobre acolhimento não depende apenas da história de Avraham. A própria Torá apresenta ensinamentos explícitos sobre a maneira como o povo de Israel deveria tratar o estrangeiro.
Em Êxodo 22:21, o povo recebe a advertência de não maltratar nem oprimir o estrangeiro. O texto acrescenta uma razão: Israel conhecia a experiência de viver como estrangeiro na terra do Egito.
Em Levítico 19:33–34, a instrução é ainda mais direta. O estrangeiro que habita entre o povo não deveria ser oprimido, mas tratado como um natural da terra e amado como a si mesmo.
O mandamento não exige que todas as pessoas tenham a mesma história, os mesmos costumes ou as mesmas convicções. Ele estabelece um princípio de responsabilidade: a condição de estrangeiro não pode ser usada como justificativa para humilhar, explorar ou tratar alguém com desprezo.
Existe uma lição importante nisso. Uma comunidade não demonstra seu caráter apenas pela maneira como trata aqueles que lhe são semelhantes. Também o demonstra na forma como age diante de quem não conhece seus costumes e não possui os mesmos vínculos sociais.
Yeshua e o próximo que não podemos ignorar
Nos Escritos Apostólicos, encontramos essa mesma preocupação com a maneira de tratar o próximo.
Em Lucas 10:25–37, Yeshua apresenta a parábola do homem que foi assaltado e deixado ferido à beira do caminho. Pessoas religiosas passaram por ele, mas foi um samaritano — alguém pertencente a um grupo frequentemente marcado por tensões com os judeus — quem interrompeu sua jornada para prestar ajuda.
O centro da narrativa não é a origem da pessoa ferida, mas a atitude daquele que decidiu agir com misericórdia.
Ao concluir a parábola, Yeshua orienta seu interlocutor a fazer o mesmo. O ensinamento desloca a discussão de uma definição abstrata de quem merece ser considerado próximo para uma pergunta prática: quem está disposto a agir com compaixão?
Essa passagem não trata diretamente da política migratória moderna, e seria inadequado usá-la como se resolvesse todas as questões jurídicas ou sociais relacionadas à imigração. Entretanto, ela oferece um princípio ético claro: a necessidade do outro não deve ser ignorada simplesmente porque ele pertence a outro grupo.
Na perspectiva judaico-messiânica, esse ensinamento de Yeshua dialoga com a responsabilidade já presente na Torá. A misericórdia não é uma ideia desconectada das Escrituras Hebraicas, mas uma prática que deve aparecer nas relações humanas.
Acolher não significa ignorar os desafios
Falar sobre acolhimento não significa afirmar que a imigração não apresenta desafios. A integração de pessoas vindas de outros países envolve questões de moradia, trabalho, educação, documentação, serviços públicos e convivência cultural.
Esses assuntos precisam ser tratados com responsabilidade, políticas adequadas e respeito às leis. Também é legítimo discutir dificuldades concretas e buscar soluções para elas.
O que não devemos fazer é transformar a origem de alguém em motivo automático de suspeita ou desprezo. Uma pessoa não pode ser reduzida à nacionalidade, ao idioma ou às circunstâncias que a trouxeram até nós.
Acolher de maneira responsável significa reconhecer a dignidade humana, combater a exploração e o preconceito e buscar caminhos que permitam uma convivência justa. Significa também apoiar iniciativas sérias de integração, orientar quem precisa de ajuda e não compartilhar acusações sem fundamento contra comunidades inteiras.
Nem todos podem oferecer abrigo ou assistência material. Mas todos podem contribuir para um ambiente em que as pessoas sejam tratadas com respeito.
O que podemos fazer na prática?
A reflexão bíblica ganha sentido quando transforma nossas atitudes. Diante da realidade dos migrantes e refugiados, podemos começar com ações simples:
- Conhecer antes de julgar: procurar compreender por que as pessoas deixam seus países e quais dificuldades enfrentam.
- Combater a desinformação: verificar notícias e dados antes de compartilhar conteúdos sobre comunidades migrantes.
- Apoiar iniciativas responsáveis: colaborar com organizações que ofereçam orientação, assistência e integração.
- Praticar a hospitalidade: tratar com respeito quem chega ao trabalho, à vizinhança, à escola ou à comunidade de fé.
- Ensinar pelo exemplo: mostrar às crianças e aos jovens que diferenças culturais não justificam humilhação ou discriminação.
Essas atitudes não resolvem todos os problemas da migração, mas ajudam a construir relações mais humanas e coerentes com os princípios das Escrituras.
Uma fé que se revela na maneira de tratar o outro
A jornada de Avraham em Lêch Lechá nos lembra que caminhar pela fé pode envolver deixar o lugar conhecido e enfrentar circunstâncias que não controlamos. Sua história não é uma descrição direta da experiência dos migrantes atuais, mas abre espaço para refletirmos sobre recomeços, confiança e responsabilidade.
A Torá nos adverte a não oprimir o estrangeiro. Os Profetas denunciam repetidamente a injustiça contra os vulneráveis. Yeshua, por sua vez, ensina que a misericórdia precisa sair do discurso e se transformar em ação.
Esses ensinamentos nos convidam a examinar não apenas aquilo em que acreditamos, mas também a maneira como tratamos as pessoas que encontramos pelo caminho.
Talvez não possamos mudar as circunstâncias que obrigaram alguém a deixar sua terra. Podemos, porém, decidir se nossa presença será mais um obstáculo ou uma oportunidade de acolhimento.
A pergunta que fica é simples: quando alguém precisa recomeçar, encontrará em nós indiferença ou compaixão?
Que a nossa fé seja reconhecida não apenas pelas palavras que pronunciamos, mas também pela justiça, pela misericórdia e pelo respeito que praticamos.
